Diário de Notícias
6 de Novembro 2007
O trágico atropelamento do Terreiro do Paço teve efeitos indirectos na minha caixa de correio. Como eu sou um perigoso selvagem que em tempos defendi que os limites impostos pelos novos radares de Lisboa eram um absurdo, leitores dedicados que guardaram esses recortes à espera de uma oportunidade sangrenta estão agora a fazer a festa. Diante de dois corpos despedaçados na Av. Infante D. Henrique, só um bárbaro se atreve a questionar limites de velocidade cerrados nas grandes cidades, certo? Talvez seja melhor dizer que sim com a cabeça. Seja um acelera maluco ou uma tartaruga obcecada pelas mortes nas estrada, um fundamentalista é sempre um fundamentalista.
O leitor Carlos Martins, numa mensagem tão demagógica que faz os discursos de Hugo Chávez parecerem um exemplo de moderação, lança-me mesmo um desafio: "Aguardamos agora nova peça do Sr. Tavares, explicando aos dez órfãos [uma das vítimas do atropelamento tinha dez filhos] que não se deve restringir as velocidades nas cidades." Da minha parte, o Sr. Tavares manda dizer que a utilização de órfãos em campanhas publicitárias é desaconselhada pelas leis da república, e que há limites para a desonestidade intelectual. Perdoem-me: o que é que um veículo descontrolado e em excesso de velocidade, que provavelmente passou um sinal vermelho e colheu três pessoas numa passadeira, tem a ver com os limites de circulação no prolongamento da Av. dos EUA? A mim, parece-me que nada. Mas as luminárias do travão acham que tem tudo.
Numa resposta ao seu mail, eu tentei explicar ao leitor Carlos Martins que estabelecer uma ligação entre uma coisa e outra seria o mesmo que atribuir a culpa da guerra do Iraque aos chineses, por terem sido eles a inventar a pólvora. Ou acabar com a caça porque dois inocentes foram mortos a tiro de zagalote. Não bate certo. Pior: é um reflexo daquele tique lusitano que consiste em despejar leis por cima de todos os problemas, e achar que tudo se resolve controlando, controlando, controlando - mas através do Diário da República. Esta gente olha para a tragédia do Terreiro do Paço e não a vê como um acontecimento pontual, inesperado e - lá está - incontrolável. Não: aquilo é sintoma de alguma coisa, num daqueles raciocínios à Paulo Coelho onde um espirro pode encerrar uma verdade escondida sobre o universo. Meus caros leitores encarniçados: as barbaridades acontecem, aqui como em qualquer lado, mas num país civilizado não é a partir de um acto selvagem que se mudam as leis - e a própria falta de civismo não se combate a golpes de chicote. Até por respeito aos dez órfãos, convém nesta questão manter um mínimo de pudor.
João Miguel Tavares
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Também sei o que é "fanatismo rodoviário". Funciona como todos os outros fanatismos: exagera um problema social, convence-se de uma solução milagrosa e depois sente-se no direito de a impor aos outros.
Os acidentes dos últimos dias e a inevitável projecção mediática servem às mil maravilhas os intentos desta gente que os usa para chantagear também os detentores de cargos públicos.
O governo e as autarquias, com medo de serem acusados de negligência, preparam-se para acolher as propostas mais idiotas e encher os bolsos dos fornecedores de radares e não só.
Quanto ao estudo das causas dos acidentes fica para as calendas.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
QUANDO A DEMAGOGIA TIRA CARTA DE CONDUÇÃO
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F. Penim Redondo
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terça-feira, 21 de agosto de 2007
Não se pode exterminá-los ?
Diário de Notícias
21 de Agosto de 2007
RADARES DE LISBOA: E NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LOS?
João Miguel Tavares
Quando uma regra é diariamente desrespeitada por milhares de pessoas, o mais provável não é que as pessoas sejam selvagens, mas que a regra seja estúpida. No espaço de um mês, os novos radares de Lisboa debitaram mais de 64 mil infracções, uma média superior a duas mil por dia. A culpa, evidentemente, não é dos automobilistas - é de um sistema torpe e ladrão, que apenas serve para promover travagens perigosas e encher os cofres da câmara. Se a média de infracções se mantiver, os radares vão oferecer a António Costa mais de 13 milhões de euros por ano, 1,5% de todo o orçamento de 2006. Eis uma trafulhice extremamente rentável, feita em nome da suposta segurança dos cidadãos.O excesso de velocidade é a desculpa mais gasta nesta terra. Ninguém com cabeça discute a necessidade de impor limites, mas é indispensável que tenham tino - e os novos radares manifestamente não têm. Se é para obrigar a andar a 50 em autênticas auto-estradas mais valia não ter inventado o automóvel. Em defesa da coisa, ouvi na televisão o comandante da Polícia Municipal de Lisboa, com um bigode muito legalista, dizer que se o código da estrada diz que a velocidade máxima dentro de uma localidade é de 50 km/h, então é a 50 km/h que se tem de andar. Uma daquelas respostas típicas de função pública bolorenta, que me obriga sempre a correr na direcção do armário dos medicamentos, à procura do Xanax. Com a sua fulminante inteligência, o senhor comandante acha obviamente naturalíssimo circular à mesma velocidade numa via de quatro faixas sem cruzamentos nem passagens de peões e numa estradeca do Alentejo onde o alcatrão acaba na soleira das portas. Dura lex sed lex.Felizmente, já por aí anda a correr uma petição justa e que resume o essencial (www.petitiononline.com/dotecome/petition.html). Conta com cinco mil assinaturas, mas ainda é bastante menos eficiente do que os radares. Assinem-na, por favor, a não ser que estejam interessados em evitar o atropelamento dos escaravelhos mais distraídos, que insistirem em empurrar bolinhas pelo meio de Lisboa. Obrigarem-nos a cumprir aquelas velocidades é pura e simplesmente um atentado às nossas liberdades e uma atitude discricionária vigiada pela polícia. É ladroagem inventada pela câmara e patrocinada pelo Estado, que nos obriga a travar só porque o nosso pé direito é banana e quer evitar chatices. Na verdade, o que devíamos todos fazer era acelerar furiosamente à passagem dos radares e, num acto de ilegalidade filantrópica, enfiar aquele maldito caixote, mais as suas luzinhas, na cabeça de quem o inventou. Em resumo: vão roubar para outras estradas.
João Miguel Tavares
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F. Penim Redondo
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